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Os
livros de Biologia e Amabis &
Martho são uma referência no
ensino médio, trata-se de uma
publicação bem elaborada,
ilustrada e marcada pela
experiência de décadas dos
autores na produção de
textos-didáticos, o que
justifica a sua ampla adoção na
escolas brasileiras.
O
livro didático continua a
exercer um significativo papel no
processo de ensino e aprendizagem
das escolas, o que aumenta a sua
importância e responsabilidade.
Em
qualquer processo produtivo,
existe a possibilidade de falhas,
o que não desmerece o seu
inestimável valor. Dada às suas
peculiaridades, é factível, e
até compreensível, a sua
existência nos livros
didáticos.
Por
outro lado, a negligência, o
desleixo, a ânsia desmedida por
lucros, podem comprometer
seriamente a qualidade do padrão
editorial dos compêndios. Neste
sentido, para coibir abusos, o
MEC implantou, em 1999, um
mecanismo de avaliação dos
livros didáticos do ensino
fundamental, que foi consolidado
no Guia do Livro Didático. Por
razões que desconhecemos, a
avaliação oficial ainda não
chegou ao ensino médio.
Em
1994, este professor publicou uma
pesquisa, na época inédita,
sobre os erros do conteúdo de
reprodução humana inserido nos
livros de ensino médio. Aquele
levantamento demonstrou a
presença de 145 erros, em apenas
9 livros de Biologia.
Recentemente,
alguns colegas, professores
universitários e de ensino
médio, têm nos perguntado sobre
qual o melhor livro didático de
Biologia. Tais questionamentos
nos incentivaram a reeditar, de
uma forma mais ampliada, a
pesquisa de 1994.
O
objetivo este texto é alertar os
alunos e professores para a
falibilidade dos livros e
conseqüente necessidade de,
sempre, se realizar uma leitura
crítica dos mesmos.
Neste
sentido, comentarei 16 dos 100
erros detectados no livro de
Amabis & Martho, volume 2,
edição de 1999, Ed. Moderna.
São os seguintes:
a)
Presença de erros crassos:
1.
" O embrião se comunica com
a placenta através de um cordão
revestido de pele, o cordão
umbilical". Comentário:
quem recobre o cordão umbilical
é o epitélio amniótico.
2.
"Crianças portadoras de
lombrigas apresentam a barriga
dilatada e manchas
esbranquiçadas no rosto,
típicas da verminose". Comentário:
ignora-se algum livro de
Parasitologia/Gastrenterologia
/Dermatologia
que corrobore tal assertiva.
3.
"Já o homem elimina, a cada
ato sexual, cerca de 350 mil
espermatozóides em cada
ejaculação". Comentário:são
350 milhões !
b)
Erros de desatualização:
4.
" A Hepatite
infecciosa...". Comentário:Há
mais de vinte anos que não se
usa a expressão "hepatite
infecciosa" e sim
"hepatite por vírus
A".
5.
"As Trompas de
Falópio...". Comentário:Em
28 de abril de 1997, portanto há
três anos foi aprovada a mais
recente Nomina Anatômica que
recomenda, dentre outras, a
supressão de epônimos. Melhor
empregar: tuba uterina.
6.
" O hicantone é prescrito
para o tratamento da
esquistossomose mansônica".
Comentário:Há
duas décadas que a droga
preferencial é a oxamniquina. O
hicantone já faz parte da
história da farmacologia da
doença.
7.
" Úlcera péptica causada
por excesso de acidez". Comentário:Desde
1983, a principal causa da
úlcera péptica é a bactéria Helicobacter
pylori.
c)
Erros conceituais:
8.
"A esquistossomose causa
complicações intestinais,
hemorragias e disfunção" Comentário:Na
realidade, a maioria dos casos
não apresenta complicação. Os
casos hospitalizados, geralmente
os terminais, são uma minoria, o
que dá a falsa impressão de que
todas são graves.
9.
"Amarelão... as pessoas...
são pálidas e têm a pele
amarelada"
Comentário:Na
verdade a pele amarelada ocorre
na hepatite. Na ancilostomíase o
indivíduo fica anêmico,
pálido. Amarelo, nesta última
doença, é força de expressão.
d)
Elaboração das ilustrações
10.
"Um desenho do ciclo
evolutivo da esquistossomose
mansônica omitiu o hospedeiro
definitivo evacuando ou fazendo
chegar as suas fezes ao ambiente
aquático".
11.
"Desenhos mostrando o
espermatozóide maior que o
óvulo". Na verdade o
espermatozóide humano tem cerca
de um terço do comprimento do
óvulo.
e)
Omissões
12.
No capítulo sobre sangue, não
foi explicado o porquê do sexo
masculino ter mais células
vermelhas que o sexo feminino.
13.
O capítulo sobre Fungos,
diferentemente dos demais,
apresenta uma abordagem muito
sucinta sobre as micoses, que
são doenças muito freqüentes.
f)
Inobservância da Ética
14.
Uso de fotografias de indivíduos
doentes sem a devida proteção
da sua identificação.
15.
"Sugestões" de
prescrição de medicamentos.
Alimentar a cultura da
empurroterapia!
g)
Persistência nos erros (já
apontados há 6 anos, na pesquisa
supracitada)
16.
Abordar num mesmo capítulo a
embriologia humana e a de outros
animais, implicando leituras
extensivas incorretas, como por
exemplo: a não penetração, no
óvulo humano, da cauda do
espermatozóide. Felizmente, a
maioria dos autores já dedica um
capítulo exclusivo para a
Embriologia Humana.
Espero
que os dezesseis exemplos de
erros, acima comentados, possam
subsidiar uma salutar discussão
sobre os conteúdos ministrados
nas escolas, e em decorrência
melhor capacitar os alunos para o
ingresso na Universidade.
Quanto
aos demais erros, fica como
"dever de casa" para
alunos e professores. P.S.: os
principais pontos positivos do
livro em tela serão motivo de
futuros comentários.
6/4/2000
Eurípedes
Sebastião Mendonça de Souza
Prof. do curso de
medicina da UFPB
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