Jornal O NORTE

FIM DE SEMANA, 26 de março de 2000

Descoberta

Professor acha erros em livros

Giovannia Brito*

 
 

  Há alguns anos, os livros didáticos tem-se mostrado cada vez mais complexos, trazendo em seus conteúdos uma grande quantidade de informações, tentando esgotar ao máximo os assuntos referentes a cada disciplina. Com isso, os livros tem sido um caminho bastante explorado por estudantes e professores na ânsia de suprirem suas necessidades de conhecimentos. E será através dessas informações que lhes foram transmitidas, que o estudante tentará chegar a profissão escolhida. Mas, até que ponto pode-se confiar nas informações passadas pelos autores de um livro?
O professor do curso de medicina da UFPB Eurípedes Sebastião Mendonça de Souza, levantou esse questionamento quando, em 1994, publicou uma pesquisa inédita sobre os erros no conteúdo de reprodução humana inseridos nos livros de biologia do ensino médio. O levantamento demonstrou a presença de 245 erros em apenas 9 livros de biologia.
No momento, o professor está reeditando a pesquisa incentivado pelo questionamento dos colegas de profissão sobre qual o melhor livro didático de biologia.
Analisando o livro de biologia de Amabis & Martho, volume 2, edição 1999, da editora moderna, o professor detectou a presença de 100 erros nos quais ele classifica como: erros crassos (grosseiros), erros conceituais, erros na elaboração das ilustrações, desatualização, omissões, inobservância da ética e persistência de erros. Para Eurípedes Sebastião, um dos erros mais graves encontrados no livro, é quando os autores afirmam que: "O embrião se comunica com a placenta através de um cordão revestido de pele, o cordão umbilical", ele retifica dizendo que a pele não recobre o cordão umbilical. Segundo o professor, o livro de Amabis & Martho, é uma referência no ensino médio, pois tem uma publicação bem elaborada, ilustrada e marcada pela experiência de décadas dos autores na produção de textos didáticos e lembra que: "Em qualquer publicação existe a possibilidade de falhas, o que não desmerece o seu inestimável valor, dada às suas peculiaridades."

* Repórter

 
Livros Que Erram Demais
Professor Denuncia Equívocos Nas Informações

Para Os Estudantes

Janaína Araújo*

 

JORNAL CORREIO DA PARAÍBA

Domingo, 26 de março de 2000

A educação brasileira vai mal. Culpa da grade curricular, sistema de educação implantado pelo governo federal ou uma série de falhas juntas?

Nas teses defendidas e discutidas em grandes eventos de educação pouco se questiona o conteúdo das centenas de publicações dos livros didáticos reeditados que chegam nas salas de aula a cada ano, movimentando um dos mais vantajosos mercados do país.

Sem garantias

Quem garante que os erros mais absurdos não continuam fazendo parte dos livros mais consumidos por alunos de escolas públicas e particulares?

O professor Eurípedes Sebastião Mendonça de Souza, do Departamento de Medicina Interna da UFPB, resolveu fazer uma revisão do trabalho que ele vem realizando desde 1993, sobre os erros e omissões dos livros didáticos de biologia utilizados no ensino médio. No total de oito livros pesquisados, três revisões já foram concluídas até agora e muitos erros e desatualizações permanecem.

Ampliação

O professor, dessa vez, ampliou a pesquisa feita em 1993, aumentando o leque de análise além do capítulo de reprodução humana, para capítulos de fisiologia humana, histologia, macrobiologia, entre outros.

Apenas no volume dois do livro Curso Básico de Biologia, dos biólogos José. M. Amabis e Martho - um dos mais vendidos no país, publicado pela Editora Moderna - foram detectados100 erros, alguns crassos.

"O livro é uma referência no ensino médio, mas por outro lado, a negligência e o desleixo e a ânsia do lucro, comprometem a qualidade do padrão editorial. Identifique erros crassos como, por exemplo, que o cordão umbilical é revestido de pele. Decididamente é um erro, porque o cordão é formado por uma membrana fina formada pelo epitélio aminiótico", disse.

Alunos desinformados

O professor Eurípedes Souza resolveu entrar no mundo das revisões após enfrentar alguns anos de dispersão e relapsia dos alunos nas salas de aula. Informações básicas "Quando comecei a dar aulas observava que os alunos tinham grande despreparo cognitivo, informações que deveriam ser aprendidas durante o ensino médio. Um exemplo básico, era de um aluno do 1º período de medicina que dizia afirmava que a cauda do espermatozóide não entrava no óvulo. Um erro crasso que continua sendo publicado no livro de Amabis", afirma.

40 erros

O segundo livro pesquisado "Biologia", do autor Wilson Paulino, engenheiro-agrônomo e professor licenciado em Biologia, foram constatados 40 erros. Já a pesquisa do último livro, do autor José Luís Soares, médico e biólogo, 60 erros nas publicações dos volumes I e II deste ano estão à venda nas livrarias. "Soares dá informações equivocadas sobre vários assuntos. Por exemplo, sobre fibras nervosas, afirmando que são prolongamentos de axônios e dendritos. Na verdade, as fibras nervosas não são constituídas por dendritos e por aí vão os erros. O objetivo principal deste trabalho é analisar o conteúdo programático de Biologia, verificando a existência de erros de conteúdo e omissões que possam prejudicar o processo de ensino-aprendizagem da Biologia", conta .

Retificações

Segundo o professor, muitas retificações e trabalhos inteiros, incluído as correções e erratas, foram encaminhadas as editoras responsáveis pelas publicações, mas recebeu pouca atenção. Algumas editoras responderam, mas deixaram a cargo dos autores, que não enviaram resposta ao trabalho do professor. "Infelizmente a estrutura comercial não permite que inserções como estas sejam aprovadas, porque os aumentariam os custos. O Ministério da Educação recebeu o material, mas também não emitiu posicionamento e quantos aos autores, eles renegaram as sugestões", finaliza.

* REPÓRTER DO JORNAL CORREIO DA PARAÍBA

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